“Ele havia ficado tão envolvido na construção de frases que quase se esqueceu dos dias bárbaros quando pensar era como um borrão de cor em uma página.”

– Edward St. Aubyn, Mother’s Milk.

Como a maioria dos livros que me encantam, sinto que esse não esconde seu enredo atrás de surpresas. Não há necessidade de um final imprevisto. Rapidamente me tornei cúmplice da obsessão de Finnegan pelo surfe.

O surfe foi a primeira coisa que me conectou ao livro. Mas logo me surpreendi com as inúmeras referências literárias que Finnegan se utiliza para descrever suas vivências e sua compreensão do mundo. Para quem ama literatura, gosta de aventuras ou se interessa um pouco por geopolítica, compartilhar da vida do surfista fica fácil.

Finnegan cresceu surfando junto à contracultura dos anos 60, passando sua infância entre a Califórnia e o Havaí. Sua paixão por livros e por escrever o levaram a universidade, mas o diploma não era o suficiente para encarar a tal vida adulta. O que lhe trazia calma era surfar.

Ilhas do Pacífico Sul.

Então ele parte para o Pacífico Sul em busca de ondas com seu companheiro de surfe Bryan Di Salvatore. Uma amizade sinceramente descrita entre muitas aldeias e ondas. Dias bárbaros.

O tempo vai passando despercebido. Dá para aprender bastante sobre as diferentes maneiras que uma onda se forma, como ela é afetada pelos ventos e marés; sobre condutas na água, respeito ao mar, pranchas, estilos de surfe e tudo que o rodeia.

Os momentos no oceano são detalhados com uma vasta riqueza de palavras, indo muito além do vocabulário comum ao surfe como lip e outside – que eu pouco conhecia. A percepção de Finnegan para o que acontece fora da água também se expande a cada onda. Seu olhar improvável deixa claro que o surfista é um grande observador e que seus diários sobreviveram milagrosamente às viagens.

Como era de se esperar, aos poucos suas súbitas incertezas sobre continuar vivendo em busca de ondas mundo afora ao invés de estar próximo à família e focar em sua carreira de jornalista se tornam mais frequentes. Essas incertezas automaticamente se transpõem para minha vida, mas de maneira reversa.

Ainda há muitas ondas a serem surfadas.

Ao terminar de ler Dias Bárbaros, fiquei interessado nas colunas que Finnegan escreve para a revista New Yorker sobre conflitos internacionais como guerras civis travadas no Sudão ou o crime organizado no México. Pretendo ler seu livro sobre quando foi professor em uma escola para negros durante o apartheid na África do Sul. Direitos humanos, conflitos internacionais e geopolítica são coisas que me intrigam. As publicações de seu grande amigo Bryan e de alguns autores citados no livro também me despertaram curiosidade. Mas sem dúvidas, nunca estive com tanta vontade de cair no mar.

Finnegan em Noriega – San Francisco.

Título: Dias Bárbaros – Uma vida no surfe
Autor: William Finnegam
Tradutor: Edmundo Barreiros

Editora: Intrínseca
Ano: 2017
Número de páginas: 432

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